Thursday, August 11, 2005

"O Oráculo de Delfos Moderno"(André Lima)

Aqui não tem jogo de espelhos
nem cortina de fumaça,
tudo é feito bem às claras,
mas cega como todo ato de farsa
na forma do conselho "boa praça".

Não existe diálogo,
ou sequer uma pergunta
com este tipo de oráculo,
que tal como Sócrates,
que ao falar,
não era lá muito democrático.

Você apenas ouve,
fica só mudo.
só porque ele gosta de mostrar
que sabe tudo.

Oh, me dê mais uma verdade,
meu nobre oráculo,
nem que seja por vaidade,
para dar espetáculo.

Aqui não tem jogo de espelhos,
nem efeito de vapores
buscados mediante valores
abaixo de seus pés
para um transe nascer
fruto de inalantes ou THC.

Dispensa pítia, outras sacerdotisas
ou quaisquer intermediários
porque é embriagado
pelo som de sua própria voz
e seu vocabulário.

Os tempos são outros,
e mesmo Sua sapiência
não tem endereço fixo
de residência.
E conforme passam as proezas
tem vários destinos,
pois Delfos é inquilino,
Delfos é inquilino.

Um Delfos moderno
sabe que é preciso
cobrar pelos seus serviços
para não morrer de fome.
E para tornar o futuro conhecido,
há quem pague pelo carcomido.

Cuida da sua vida,
porque eu não quero farelo na minha fama;
Carrega seus porcos
para longe do viveiro,
para comer apenas
do que é do seu chiqueiro.

21.09.2002

"Se for só rimar por rimar"(André Lima)

Se for só rimar por rimar.
eu rimo verbo com verbo,
disfarço em outro verso
que eu tento explanar.

Se for só rimar por rimar,
eu me escondo nos elogios
da crítica burocrática,
e me assomo
de atitudes diplomáticas.

Se for só rimar por rimar,
eu vou fingir que me
calo na hipologia,
pois o cavalo
quando se serve da tranquilha,
fica sob controle
e nunca mais erra a trilha.

Se for só rimar por rimar,
vou permitir que me chamem
pelo rótulo abusivo
de poeta romântico ou depressivo,
porque é o melhor motivo
para atrair a atenção.
Mas me esqueço de que sou maneta
e choro sempre a falta da outra mão.

Se for só rimar por rimar,
eu tenho minha vela p`ra acender
para a religião vir me salvar.

Se for só rimar por rimar,
um Deus para o céu,
outro para a terra
e mais um para o mar.

Se for rimar por rimar,
sabendo que sou único
irei me fazer par.

Se for só rimar por rimar,
eu rimo verbo com verbo,
disfarço em outro verso
que tento explanar,
disponho de meu título em excesso,
uso a primeira estrofe para encerrar
e daí tudo acaba como ameaçou começar.

03.03.1995

Wednesday, August 10, 2005

"Literatura de Bula"(André Lima)

A vista cansada
de ter sua atuação forçada
em letras pequenas e escuras,
típicas da literatura de bula.

Não, não são miragens.
Para fazer sumir essas imagens
não precisa esfregar os olhos,
pois tudo é questão de tempo
e efeito do ópio.

Qual a porção absoluta de doses
que podia, ou ainda pode,
me dar o controle definitivo,
a derradeira posse?

Temi por meu equilíbrio e sanidade,
haja visto
que onde outrora era rijo
deixou de ter a menor densidade.

Os sons entrecortados,
de diversas procedências,
dão idéia assegurada
de exigir minha audiência.

Só frustei os sonhos alheios,
cabeças dão negativos meneios,
mas não tenho mais concentração e paciência
para o "Sr. Doutor" ou "Vossa Excelência".

Assimilar, eu não assimilo.
E o que devia partir,
fica só retido na retina
ao invés de ir para o arquivo.

Com a racionalidade ferida
com base na mais pura estatística.
fico pensando se não sou avarento
de ceder menos que o mínimo de dez por cento.

Hehehehhehehehehehehehe!
O outro tomou tanto cuidado
para não vender a alma ao diabo,
acabou dando de graça
para algo mais podre
porque a colônia barata
camuflou o odor do enxofre.

E quero deixar algo bem claro
em face da distorção nos fatos,
se bem que, embora, de forma tardia:
MINHA CORAGEM É SÓ COVARDIA.

13.12.2003

Tuesday, August 09, 2005

"Bordões"(André Lima)

Você não se conforma
em ter que pensar
então usa frases feitas
que parecem perfeitas
para quem não consegue criar

Frases repetidas
que são massificadas
sem o menor pudor
de serem citadas
enquanto plagiadas

Bordões!
Frases feitas
que parecem perfeitas
para quem não consegue criar.

"A Verdade é Versão Bem-Sucedida - Trecho"(Wendel Freire / André Lima)

Para Wendel Freire, sujeito genial.


A verdade é versão bem-sucedida
não há a quem se credite,
como em Nietzsche,
por mais que se queira
a verdade não existe por inteira.

"Pennyroyal Tea" (Kurt Cobain)

I'm on my time with everyone
I have very bad posture
Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that's inside of me
Sit and drink Pennyroyal tea
I'm anemic royalty
Give me a Leonard Cohen afterworld
So I can sigh enternally
I'm so tired I can't sleep
I'm anemic royalty
I'm a liar and a thief
Sit and drink pennyroyal Tea
I'm anemic royalty
I'm on warm milk and laxatives
Cherry-flavored antacids

Friday, August 05, 2005

"O Minuto Seguinte"(André Lima)

Cadê o minuto seguinte
que até agora não chegou?
É que estou desconfiado
do pé esquerdo apressado
que, por desventura, adiantou.

Cadê o minuto seguinte
que faz de nós, em sua jornada,
torpes pedintes?
Ainda assim minha boca seca
destila ironias e acintes.

Cadê o minuto seguinte
que sorve ansiedade em finos requintes?
É que com esta luz postiça
eu estou ficando cego,
queima e alija as pupilas
com o peso de mil ferros.

09.11.2003

"O Não-me-toques"(André Lima)

A dama crê que o seu caso
é absolutamente raro,
mas receio que seja
mero despreparo.

De que é feito seu chão
que a bel-prazer
teima em se desfazer
sob qualquer sinal de tensão?

É que bastam-me duas doses
de mel e conhaque
para criar um
palmo de araque.

Tome este bom-dia
como um tratado-mor de cortesia,
pois só há acesso à direita
ao longo de toda esta estreita via.

Como pleitear o céu
em meio a um conflito interno
se lá do alto pende
um hemorrágico inferno?

O que era sangue lá em cima,
sobra para os de baixo, e respinga,
mas não como produto
do mesmo fluido: agora é só saliva.

Não entendo o apelo
de tanta vaidade ou zelo,
se nem direito a imagem
você tem no espelho.

É que é muito extenso o meu espaço,
fora o que usurpo e abarco,
então demarco sem dó
à maneira dos machos.

Nem levantei a voz, ou fiz prece,
para defender minha tese,
sei que a arte é muito mais
que só dizer que faz e acontece.

E o que era outrora maciço
ganha uma outra expressão,
não sem certo rebuliço,
com ares de prédio em implosão.

Junho/2004

Thursday, August 04, 2005

"Cobray M-11/9 Calibre 9 Milímetros"(André Lima)

Surgi da relação ocasional
entre um homem e uma mulher
que sequer lembravam um casal.
Cada um por seu intuito
não ficaram para ver no futuro
a extensão desse mal.

Da mulher:
apesar do momento
em um porta retrato
insisto em desvincular
sua presença e rosto de meu parto.

Do homem:
ao invés da imagem de super-homem
carregasse como cicatriz
apenas o primeiro nome.

Embora evitasse corpo e face,
para me aproximar da mãe/imagem,
e para me dar ciência de todos os seus atos,
mandavam-me às ruas de vestido, batom e sapatos altos.

E enquanto a sociedade execrava,
eu admirava os feitos de outros
tidos como monstros e loucos.

Durante muitos anos
fiquei consolidando minha imagem
de sujeito pacato e passivo,
incapaz de um ato intempestivo.

É notório que nunca tive amigos.
E quem esteve por perto
sempre ignorou meus modos frios,
dando a desculpa de eu estar
sempre centrado nos meus objetivos.

E quando me dirijo aos meus tios,
é de maneira impessoal,
pois só deixaram
que eu crescesse
e me enganasse
como um garoto de classe média normal,
imortalizado em uma foto amarelada
com uniforme da rede municipal.

Dentro do armário,
guardo um dinheiro juntado
às custas de trabalho escravo,
uma vez que ainda menino
iniciei atividades na loja de um primo.

Nesta altura é quase nula
qualquer participação feminina,
minha única mulher é heroína.

Cada centavo para cumprir um carma.
No mercado negro, R$ 5000 pela arma.
Um artefato de grosso calibre
que em um espaço escuro e curto
contabiliza n tiros por minuto,
assim me veria completamente livre
para rir da reconstituição tipo Matrix.

Restos de crack na gaveta
insinuam uma trilha;
37 g de cocaína ao longo dos dias;
pausa no Zyprexa para dar corpo à chacina.

Um de cada vez,
porém bem aos poucos
por cada um daqueles
chamados de loucos.

Todos se perguntam: Por que? Por que? Por que?
E pode parecer que, a princípio,
não existe um motivo,
mas não me importo com seu poder compreensivo.
Basta que se saiba que existe um motivo,
que cultivo com doses puras de razão,
sem o motivo de vozes e visões,
que atribuem a outros nos
comandos de suas missões.

E se acontecer algo
fora dos planos,
farei em trinta
o que não fiz em sete anos.

Por orientação de um advogado,
não emitirei nenhum comunicado,
talvez que eu seja julgado
como ininputável,
e aí serei encaminhado
a um hospital psiquiátrico.

E se acontecer algo fora dos planos,
saibam que eu dormirei tranqüilo,
as mesmas oito horas por dia,
e carregarei um único sorriso,
no qual guardarei todos os meus planos,
então farei em trinta
o que não fiz em sete anos

30.05.2002



"Olhos de ver, ouvidos de ouvir"(André Lima)

Olhem o rastro de culpa
no suor que corre frio
na testa sulcada do homem

Olhem o traço de esperma
que se mistura na lágrima
em hora importuna para o homem

Olhem a autonomia dos lábios
no instante exato do grito
e a saliva em fuga prolífica
na derrota do homem

Porém, por mais que
estes homens sejam observados,
ouçam somente aquela mulher

10.02.2003

"Cova Rasa" (André Lima)

Desde 1849,
as portas estão abertas
aos pretos e pobres.

Anjos de três metros
velam o caminho
junto aos ratos,
gatos vadios,
aqui o sol não bate,
faz sempre frio

As flores são regadas
com algo mais que água
e as velas alumiam as trevas
que não são avistadas

Um rosário de nomes,
fotos e datas.
Aqui tenho medo
das horas exatas.

E quando chegam
as horas exatas,
do nada surge
a litania das beatas.

O trabalho abjeto
e a qualidade do concreto
dá, aos curiosos, vermes e insetos,
irrestrito, livre acesso.

O nobre coveiro
demonstra sensiblidade
deixando o morto
visitar a paisagem

Um ato de simpatia
com alguém que pelos planos
será sua companhia
por quinze dias e mais três anos.

E o meu destino
está a alguns passos da capela,
e apesar da visita
nem viv`alma me espera.

04.06.2003

Tuesday, August 02, 2005

Os intelectuais nunca tem razão”
(André Lima)

É preciso tempo
para alcançar a lucidez,
pois quinze minutos
é pouco intento
para quem veio de vez.

Mal de Witzelsucht (André Lima)


A cama terá sempre lateralmente
o dobro de sua estrutura
e absolutamente ninguém
dará testemunho de cada nova ruga

Sim, tire fotos de seu próprio rosto,
dócil em tese,
e de uma paisagem que só faz pose
porque não se mexe.

A cada dia
o mesmo impasse, um alvoroço,
para sacar da gaveta
a face a ser usada acima do pescoço.

E a escuridão oculta os traços
de meus vampiros sanguinários,
mas sei, com certeza,
que tem unhas feitas e cabelos alisados

Data de priscas eras
a época em que eles ansiavam por um convite
ou que suas intenções eram desnudadas
com o suporte de uma refletiva superfície

Usar branco só
não positiva a ação
o que o faz é o algo mais que jaz
em grau três na epiderme da razão

Só rezar não adianta,
mas como já ajuda,
vem você encher os ouvidos de Deus
e o saco de São Judas

Não importa toda proteção das roupas,
que perfazem dezenas de quilos,
é internamente que neva e faz frio,
mas poupe o colete, que com você não se gasta um tiro


Eh, meu nega!
Eh, meu nego!
Pisem macio
se o objetivo final for sossego.

E sai de trás de mim
que eu não quero puxar fila,
a paz continua sendo o bem maior
que quero da vida

30.07.2005